Historia da Cachaça

Nosso Senhor Jesus Cristo, quando caminhava por uma estrada, morrendo de sede, debaixo de um sol causticante, avistou um canavial.
Protegendo-se do sol entre sua folhagem, refrescou-se do calor.
Depois de descascar uma cana, chupou alguns gomos, saciando sua sede.
Ao ir embora, para seguir viagem, estendeu suas mãos por sobre o canavial, abençoando-o desejando que das canas o homem haveria de tê-las sempre boas e doces.Jesus-Deus-vs-LuciferEm um outro dia, o Diabo, passando pela mesma estrada, foi dar no mesmo canavial.
Ali parando, resolveu refrescar-se. Cortou um pedaço da cana e começou a chupar um gomo, mas seu caldo estava azedo, e quando por ele foi engolido, desceu garganta abaixo queimando-lhe as ventas. Irritado, o diabo prometeu que da cana o homem tiraria uma bebida tão forte e ardente quanto as caldeiras do inferno.
Daí surge o açúcar abençoado por Nosso Senhor e a cachaça Amaldiçoada pelo Diabo. cachaca_uma_dose_de_historia_1__2013-07-03162037

História

A cachaça é uma bebida de grande importância cultural, social e econômica para o Brasil, e está relacionada diretamente ao início da colonização do País e à atividade açucareira, que, por ser baseada na mesma matéria prima da cachaça, forneceu influência necessária para a implantação dos estabelecimentos cachaceiros.
Os primeiros relatos sobre a fermentação vem dos egípcios antigos. Curam várias moléstias, inalando vapor de líquidos aromatizados e fermentados, absorvido diretamente do bico de uma chaleira, num ambiente fechado.
Os gregos registram o processo de obtenção da acqua ardens.
A água que pega fogo – água ardente (al kuhu).
Alquimistas tomam conhecimento da água ardente, atribuindo-lhe propriedades místico-medicinais. Transforma-se em água da vida, e a eau de vie é receitada como elixir da longevidade.
A aguardente então vai da Europa para o Oriente Médio, pela força da expansão do Império Romano.
São os árabes que descobrem os equipamentos para a destilação, semelhantes aos que conhecemos hoje. Eles não usam a palavra al kuhu e sim al raga, originando o nome da mais popular aguardente da península arábica: arak, uma aguardente misturada com licores de anis e degustada com água.
A tecnologia de produção espalha-se pelo velho e novo mundo. Na Itália, o destilado de uva fica conhecido como grappa.
Em terras Germânicas, se destila a partir da cereja o Kirsch; na antiga Tchecoslováquia, atualmente dividida em República Tcheca e República Eslovaca, a destilação da Sleva (espécie de ameixa) gera a slevovice (lê-se eslevovitse).
Na Escócia se populariza o whisky, destilado da cevada sacarificada.
No Extremo Oriente, a aguardente serve para esquentar o frio das populações que não fabricam vinho.
Na Rússia a vodca, de centeio.
Na China e no Japão, o saquê, produzido a partir da fermentação do arroz é frequentemente confundido com uma aguardente devido ao seu elevado teor alcoólico, mas é na verdade um vinho. Portugal também absorve a tecnologia dos árabes e destila, a partir do bagaço de uva, a bagaceira.
Já em 1530 os primeiros donatários portugueses decidem começar empreendimentos nas terras orientais do Novo Mundo, implementando o engenho de açúcar com conhecimento e tecnologia adquiridos nas Índias Orientais, vindas do sul da Ásia.
Assim surgem na nova colônia portuguesa os primeiros núcleos de povoamento e agricultura.
A geração inicial de colonizadores apreciava a bagaceira portuguesa e o vinho do porto. Assim como a alimentação, toda bebida era importada da metrópole.
Em algum engenho é descoberto o vinho de cana-de-açúcar, que é o resultado do caldo de cana fermentado, como também dos subprodutos da produção do açúcar, como as espumas e o melaço misturados à água.
É uma bebida limpa, em comparação com o cauim – vinho produzido pelos índios, no qual todos cospem num enorme caldeirão de barro para ajudar na fermentação do milho.
Os senhores de engenho passam a servir o tal caldo, denominado cagaça, para os escravos.
Em 1584 o Memorial de Gabriel Soares de Sousa faz referências a “oito casas de cozer méis” na Bahia.
Dos meados do século XVI até metade do século XVII as “casas de cozer méis” se multiplicam. Inicialmente “casa de cozer méis” era o nome dado aos engenhos produtores de açúcar e posteriormente foi também aplicado aos alambiques produtores de cachaça.
O primeiro registro histórico da cachaça aparece apenas na década de 1620 na Bahia, coincidindo com o rum nas possessões inglesas nas Américas, da aguardiente de caña nas espanholas e da tafia nas francesas. Ou seja, a cachaça, o rum, a aguardiente de caña e a tafia foram todas criadas a partir dos mesmos subprodutos da produção de açúcar, o melaço e as espumas.
A cachaça torna-se moeda corrente para compra de escravos na África.

cachaca_uma_dose_de_historia_4__2013-07-03162119Alguns engenhos passam a dividir a atenção entre o açúcar e a cachaça. A descoberta de ouro nas Minas Gerais, traz uma grande população, vinda de todos os cantos do país, que constrói cidades sobre as montanhas frias da Serra do Espinhaço. A cachaça ameniza a temperatura.
Incomodada com a queda do comércio da bagaceira e do vinho portugueses na colônia e alegando que a bebida brasileira prejudica a retirada do ouro das minas, a Corte proíbe a partir de 1635 várias vezes a produção, comercialização e até o consumo da cachaça. Sem resultados, a Metrópole portuguesa resolve taxar o destilado.
Em 1756 a aguardente de cana-de-açúcar foi um dos gêneros que mais contribuíram com impostos voltados para a reconstrução de Lisboa, destruída no grande terremoto de 1755.
Para a cachaça são criados vários impostos conhecidos como subsídios, como o literário, para manter as faculdades da Corte.
Com o passar dos tempos melhoram-se as técnicas de produção. A cachaça é apreciada por todos.
É consumida em banquetes palacianos e misturada ao gengibre e outros ingredientes, nas festas religiosas portuguesas – o famoso quentão.
Devido ao seu baixo valor e associação às classes mais baixas (primeiro os escravos e depois os pobres e miseráveis), a cachaça sempre deteve uma aura marginal. Contudo, nas últimas décadas, seu reconhecimento internacional tem contribuído para diluir o índice de rejeição dos próprios brasileiros, alçando um status de bebida chique e requintada, merecedora dos mais exigentes paladares.
O total de produtores de cachaça em 2011 alcançou no Brasil os 40.000, sendo que apenas cerca de 5.000 (12%) são devidamente registrados.
Por ser uma bebida popular que vem há séculos acompanhando o povo brasileiro, é conhecida por inúmeros sinônimos como abençoada, abrideira, água que passarinho não bebe, amnésia, birita, codório, conhaque brasileiro, da boa, delas-frias, danada, divina, espevitada, de-pé-de-balcão, do balde, espírito, fava de cheiro, fia do sinhô de engenho, gasolina de garrafa, geribita, imaculada, januária, lambida, levanta velho, lisa, malta, mandureba, maria branca, mé, néctar dos deuses, oleosa, paratí, pitú, preciosa, queima goela, refrigério da philosophia, rum brasileiro, salinas, semente de arenga, suor de alambique, terebintina, tinguaça, uca, uma que matou o guarda, vinho de cana, vocação, ypióca, etc. Seus sinônimos passam de 2.000 e a cachaça é, sem dúvidas, a palavra com mais sinônimos na língua portuguesa e talvez em qualquer outra língua.
Atualmente várias marcas de boa qualidade figuram no comércio nacional e internacional e estão presentes nos melhores restaurantes e adegas residenciais pelo Brasil e pelo mundo.

 DERRAMAR BEBIDA NO CHÃOcamara cascudoLuís da Câmara Cascudo

Pelo interior do Brasil ainda resiste o costume do bebedor derramar um pouco de bebida no chão.
Antes ou depois de servir-se, joga aguardente no solo.
É um gesto maquinal mas alcançando todo o território nacional.
Outrora era mais comum o líquido ser atirado antes de beber-se. Presentemente o uso é lançá-lo ao final, esgotando o copo.
Este deve ficar limpo. Sem bebida. Identicamente em Portugal, Espanha, França, Itália etc.
Já tenho, desde 1941, publicado observações a respeito do rito da cachaça e seus respeitos no âmbito popular. Quando comecei a estudar o catimbó (Meleagro. Rio de Janeiro, Editora Agir, 1951) encontrei o mesmo complexo no mundo da magia branca e negra, entre os “mestres” do catimbó e os babalorixás do Xangô.
Quantas vezes nas minhas pesquisas em Natal ouvi o diálogo clássico entre os veteranos cachaceiros.
Enchido o copo, o que paga diz a frase ritual:
Vamos dar-lhe! O homenageado deverá responder:
Venha de lá, valendo exigir que o outro beba em primeiro lugar.
Este retruca: Venha de lá que eu vou de cá! Tradução:
“Beberei depois de você”;
O homenageado sacode uma porção de “branquinha” no chão, e ingere.
Passa o copo ao outro que sorve sua parte.
Atualmente é o ofertante que joga no solo o que sobrou da bebida.
É o comum, diariamente verificável, cerimonial antiquíssimo porque é cumprido sem que mais se conheça sua significação.
Desapareceu qualquer elemento compulsivo mas continua obrigatório, indispensável no costume, fazendo parte integrante da etiqueta normal, da boa educação no plano da camaradagem.
No catimbó todo o cauim (aguardente) bebido foi preliminarmente defumado com a “marca” (cachimbo do mestre) e deve uma parte ser atirada no chão em homenagem aos mestres, os soberanos dos reinos invisíveis, doadores dos “bons saberes”.
Em certos catimbós a obrigação deve ser feita antes e depois de beber.
Antes de tocar com os lábios e depois de haver sorvido a porção protocolar. Nos mais rústicos e antigos catimbós, o de mestre Dudu da Serrana, na margem esquerda do rio Potengi, diante da cidade do Natal, derramava-se um copo inteiro de cachaça antes de qualquer “trabalho”, logo depois de aberta a sessão e cantada a “Linha de abertura”.
Nos mais adiantados onde os “mestres” tinham lido e viajado (Pará, Bahia, Recife ou Rio de Janeiro) a oferta cingia-se às gotas jogadas ao solo, antes ou depois de beber-se.
Era fatal, com os “mestres” fiéis à tradição catimbozeira na legitimidade da expressão, o gesto para que o bebedor deixasse o copo inteiramente vazio.
O copo com algum líquido, depois da bebida, era uma falta manifesta de respeito aos “mestres”, invisíveis e poderosos.
Só existe uma explicação para este costume arraigado e natural no nosso povo.
É a Libatio dos romanos e gregos, desaparecida há quase dois mil anos no uso religioso e mantida no costume inconsciente, pelos herdeiros da cultura que se dissolveu, no tempo, em Portugal e, decorrentemente, no Brasil colonial.
E ficou resistindo até nossos dias.
O ato de Libaro era justamente derramar água, vinho ou óleo perfumado, no chão, no lume ou no altar, oferenda aos deuses.
Não se começava uma refeição grega ou romana sem a libação.
Provava-se o líquido e despejava-se o restante no solo.
Sem esta pequena cerimônia os deuses teriam inveja da alegria do banquete e vingar-se-iam.
Para contentá-los ofereciam, antecipadamente, parte do simpósio, expresso no Libatio ritual.
Era a participação sagrada no alimento terrestre.
Comumente faziam a Libatio como súplica. Homero (Ilíada, XVI, 221-233) descreve a libação de Aquiles, na tenda diante de Tróia, a Zeus, senhor do raio, oferecendo-lhe vinho em taça virgem.
Devia ser o primeiro ato diário dos homens virtuosos aconselhava Hesíodo, no Trabalhos e os dias.
O apóstolo Paulo, I Filipenses 11, 17, fala em “derramar meu sangue à maneira de libação”, mostrando a contemporaneidade da cerimônia.
O Velho testamento abunda em citações comprovadoras, Números, XXVIII, 7-8, Reis, VII, 1-6 etc.
Em Burna o tamarineiro (Tamarindus Indica, L) é venerado e ofertam vinho e água às suas raízes.
Entre os jeje-nagô, o Irôco, gameleira (Ficus religiosa), lôco dos bantu, recebe culto idêntico na África, e na Bahia, estudado por Nina Rodrigues, Artur Ramos, Edison Carneiro. Seabrook registrou semelhantemente no Haiti.
Na Índia os “ficus”, Banian (F. indica) e Pipal (F. religiosa, a nossa gameleira), têm direitos idênticos, despejando-se ghee, manteiga clarificada, no tronco. Igualmente o Tulusi, outro ficus, é sagrado, com manifestações da libação. Diga-se, de passagem, que o deus Crisna se casou com a árvore Tulusi.
Petrônio (Satiricon, LXXIV) conta no banquete de Trimalxião o arrepio de susto quando um galo inopinadamente cantou.
Anunciava incêndio próximo ou a morte de alguém. O dono da casa passou o anel da mão esquerda para direita.
Aspergiram o azeite das lâmpadas. Todo o vinho foi derramado sob a mesa. “Vinum sub mensa jussit effundi”. Era uma libação, evitando o presságio para os alegres convivas.
Nos antigos povos caçadores o costume da libação aos troféus era elemento decisivo para felicidade e seqüência da fartura.
Os crânios de certos animais eram molhados de vinho, como ainda hoje fazem os Ainos com as cabeças de ursos.
Lembro um episódio que presenciei no Recife durante o Carnaval de 1939, creio. Um popular mandou abrir uma garrafa de cerveja e derramou-a no chão, junto ao porta-bandeira de um clube barulhento e querido que vinha sendo acompanhado por uma multidão entusiastica.
O porta-bandeira, sorridente e orgulhoso, molhou a extremidade da haste do estandarte, perfeitamente certo da alta significação simbólica que sua agremiação merecera.
Era, irretorquivelmente, uma libação clássica.
Num romance recente de Nevil Shute (A Hora Final, Rio de Janeiro, 1958, p.1000) a libatio aparece como uma normalidade inglesa, norte-americana, australiana.
Fala um general reformado, Sir Douglas Froude: “Ergueu o seu cálice de xerez: Bem.
Agradeçamos à Providência por você ter voltado são e salvo. Creio que devíamos derramar um pouco no chão em sinal de júbilo”.
No monitórios do Santo Ofício nos séculos XVI e XVII perguntava-se cuidadosamente se na residência suspeita de judaísmo, em caso de falecimento, esvaziavam toda água existente, despejando-a fora, como fizeram com o vinho no banquete de Trimalxião.
A explicação do monitorio era bem diversa mas com a libação com água pura existiu entre os israelitas (Reis I, VII, 1-6), bem podia tratar-se de uma representação típica aos manes funerários.
Esta superstição ainda existe, usual e viva, no Brasil.
O tempo vai passando mas não leva todas as coisas. Muitas vão ficando dentro do cotidiano, vividas numa vitalidade surpreendente, manifestações sem conteúdo místico mas reais no gesto notário que lhes denuncia a existência milenar.
(Cascudo, Luís da Câmara. “Derramar bebida no chão”)
 NOME DE CACHAÇA…

abençoada

abrideira

acaba-festa

adorada

alpista

aninha

apreciada

arrebenta-peito

branca

branquinha

brasa

braseira

brasileira

bichinha-boa

acorda-o-velho

afamada

afiada

água-benta

água-bruta

água-de-briga

água-de-cana

aguada

água-forte

Água que passarinho não bebe

alertadeira

alma-de-gato

amansa-sogra

água-que-gato-não-bebe

amansa-corno

amargosa

antibiótico

apetitosa

arranja-briga

arranca-bofe

atitude

a-que-matou-o-guarda

azarenta

bichinha

Bicho bom

bigorna

birinaite

birusca

bribada

branquinha

briosa

cabo

catutca

caideira

calafrio

calorenta

cambirimba

cambraia

canavieira

canforada

canilina

capilé

catuta

catinguenta

chamegada

chamarisco

cipoada

cheirosinha

carinhosa

carraspana

caxaramba

caxiri

caxirim

chibatada

choraminga

chorumela

cobreira

corta-bainha

cotréia

cumbe

cumulaia

criminosa

curandeira

da boa

danadinha

desperta paixão

distinta

depurativo

douradinha

encantada

enrola-chifre

girgolina

goró

ensina-estrada

gororoba

jeribita

jurubita

lapada

limpa

lindinha

lisa

mandureba

marafo

mel

merol

mamãe-sacode

meu-consolo

não-sei-quê

papôco

maria-branca

papudinha

precipício

piadeira

mata-bicho

pifão

pinga

pisca-pisca

mata-o-velho

pura

purinha

queimante

quero-mais

reiada

saideira

sacudidela

salve-ela

samaritana

sapeca

sedutora

seleta

sopapo

sossega-leão

sputinik

renitente

suadeira

sururu

tacada

talagada

tagarela

tiririca

tiúba

tijolo-quente

tira-frio

tira-prosa

tira-reima

tiririca

tiúba

tentação

tenebrosa

treco

tremedeira

trombada

turbulenta

uma

valentona

veneno

venenosa

uma-da-boa

vexadinha

vuco-vuco

xaropada

uma-daquelas

xixi-de-anjo

zombeteira

zinabre

virgem-afamada

zuninga